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A chuva, as ondas e o ...


Apesar de nublado, aquele dia estava quente. Decidi ir nadar. Quando cheguei a praia, encontrei o mar “espelhado”, liso, sem nenhuma onda, “flat", como se costuma dizer! Perfeito para umas braçadas!

O horizonte estava bem cinza, “pesado”, eram nuvens de chuva. Mas, pensei comigo mesma: “- Essa chuva vai demorar a chegar aqui. Qualquer coisa eu saio da água!”

Segura de mim, coloquei os óculos, a touca e entrei. “- Água morna, perfeita para nadar, sem onda nenhuma.” Fui procurando me manter mais próxima a areia, tracei a rota que estava acostumada, paralela a praia e em direção as pedras, comecei a nadar!

Nas primeiras braçadas, a cada respiração, olhava para o horizonte tentando adivinhar se a chuva estava mais próxima. E quanto mais eu nadava, mais os pensamentos iam me distraindo e me distanciando da preocupação inicial. Comecei a me deixar envolver pelo movimento das braçadas, do corpo, da respiração na água, estava segura: “- Água morna, perfeita para nadar, sem onda nenhuma.”

Alguns metros depois, percebi uma corrente de água mais fria embaixo de mim. Quando me dei conta, estava mais distante da areia, a correnteza havia me puxado para mais fundo. Comecei a nadar em diagonal, em direção à praia, tentando voltar a reta que eu havia traçado. E, de novo percebi que a correnteza embaixo de mim havia mudado, e quanto mais eu me aproximava da beirada mais a ondulação subia. O mar que eu entrei estava diferente!

A segurança inicial tinha me abandonado. Quando subia a cabeça para pegar ar, de um lado via o horizonte mais cinza e do outro a espuma branca das ondas que estouravam na areia. O mar tinha “crescido” muito de repente! Eu estava literalmente nadando sem sair do lugar. Nadando contra a maré.

Meus braços e pernas começaram a ficar mais pesados. Comecei a sentir frio, a respiração não era o suficiente e meu coração acelerou a ponto de doer no peito. Não conseguia raciocinar para traçar uma nova rota. Meu corpo estava frio e minha cabeça quente dentro da touca. Ao mesmo tempo um suor me incomodava além de todos as outras sensações. Sim, é possível suar na água! E, a ansiedade, o medo tinham tomado conta do meu corpo!

Distante da areia, longe do objetivo traçado e longe do ponto de partida.

A respiração curta embolava meus pensamentos, comecei a ficar cansada, muito cansada! Precisava dar um jeito de descansar. Resolvi virar o corpo e comecei a boiar. Apenas boiar. Sentia a tremedeira do corpo. Sim, estava tomada pelo medo. Onde estou, não consigo colocar os pés no chão. Vejo a praia longe, ondas estão grandes se formando uma atrás da outra. “- Como saio daqui?” - Olho através das lentes embaçadas dos óculos e as pedras, que eram meu destino, ainda estão bem longe. Boio, sinto nas costas e o corpo no ritmo do sobe e desce das ondas. Olho para o céu, embaçado do óculos e a as nuvens pesadas estão sobre mim.

E começa a chover! Além de sentir o movimento das ondas nas costas, conseguia ouvir claramente dentro da touca o eco das ondas dos meus pensamentos: “- Por que não foi embora quando viu as nuvens, tá cansada de saber que o mar é imprevisível, com chuva mais ainda, pra que entrar sozinha no mar, e agora...?" A chuva batendo nas lentes dos óculos, no rosto! " - E agora? Não dá para ficar boiando pra sempre?”

Naquela imensidão, me sinto um nada de óculos, touca e maiô. Pequena, incapaz de fazer alguma coisa, mesmo sabendo nadar. Como agir, mesmo conhecendo bem o percurso que havia traçado? Me senti frágil, pequena, posso dizer burra mesmo. Medo, raiva, sou tomada por uma confusão de sentimentos e instintos. E fico ali, boiando paralisada pelo medo. Na imensidão do mar eu sou um nada de óculos, touca e maio, na chuva!

"...sinto os membros do corpo tremer e minha boca secar" (Bhagavad Gita - Cap.1 verso 28) Abro a boca, sinto a água doce da chuva lá na garganta! E, sou tomada por uma necessidade de respirar mais profundamente, o som da respiração ecoa mais alto dentro da touca do que o barulho das ondas dos pensamentos. Um grito “- Respiiiira!” Começo um pranayama (exercicio de respiração) enquanto boio.

Com os ouvidos tampados pela touca, consigo escutar melhor minha respiração. Começo a observar meu corpo que flutua melhor quando encho os pulmões, então solto o ar devagar, lá no fundo da garganta! A chuva faz um barulho contínuo nas lentes dos óculos e tudo parece estar em um ritmo só. Descanso. No meio do nada, me sinto um nada de óculos, touca e maio!

Me vejo tomada por “Abhinivesah”, a palavra aparece escrita dentro das lentes embaçadas dos meus óculos. Enquanto boio, penso sobre o que é “Abhinivesah” esse MEDO. É um instinto? Um sentimento? Os dois? Medo de morrer aqui, no mar. Preciso sair dessa situação, preciso sair dessa inércia. “- Não vou morrer, agora não!”

Volto a nadar! Ainda procurando estar atenta ao som da respiração dentro da touca. Agora sentia a massagem da chuva nas costas, nos braços, nos pés. Uma braçada, após a outra, começo a repetir mentalmente “– svarasavahi viduso’pi samarudhah abhinivesah” - várias e várias vezes. Canto o sutra na mente em uma repetição contínua. (Yoga Sutra 2.9).

Uma braçada após outra, o que é esse MEDO que estou sentindo. Puxo o ar mais que posso, solto longamente dentro da água. Acalmo a respiração. Penso na paralisia, cegueira, na força desse sentimento, instinto. "...surge da percepção sensorial...preciso aprender a tolerar seus sintomas sem perturbar meus pensamentos" (Bhagavad Gita - Cap.2 verso 14). O MEDO. Uma força que nesse momento preciso enxergar como usar a meu favor. Preciso continuar nadando, reagir, mantendo o folego para sair bem daqui.

Uma braçada após outra, outra memória de leituras recentes, no livro Sapiens, o autor menciona mais de uma vez como o instinto, sentimento de MEDO foi fundamental em todo processo evolutivo da humanidade. Dos estudos do Samkhya, reconheço minha mente tomada por "rajas". E, a lembrança de um exercício proposto pelo meu professor. "Faça um Vinyasa krama para encarar o MEDO". E lembro que uma das traduções para abhinivesah é o apego a vida, um desejo poderoso de viver.

E aí está a resposta. Vou usar esse instinto, para nadar! Uma braçada após outra, uma longa respiração após a outra! Um passo de cada vez! Então começo a enfrentar a ondulação.

Mais calma, percebo o movimento da correnteza do mar e sigo a seu favor em direção à praia, preciso chegar na areia. Mais perto da arrebentação, vou mergulhando em uma onda após outra. Engulo água salgada, mas o MEDO é maior que a ardência na garganta. Consciente do desconforto, me deixo embolar em uma onda depois da outra, relaxando o corpo para que o mar me “jogue” pra fora.

Enquanto embolo naquele tanto de água salgada, areia e espuma, abraço o meu MEDO e nele encontro segurança de uma prancha. O mar vai me colocar para fora!

No MEDO encontrei a calma que precisava para manter o folego.

Saio meio zonza da água, me arrasto até a areia mais seca e me deito. Consegui! De novo o eco na minha cabeça repete: “– svarasavahi viduso’pi samarudhah abhinivesah- o medo é um sentimento inato de ansiedade pelo que está por vir. Um dos obstáculos mais difíceis de ser superado."

Ali na areia entendi que é um sentimento, um instinto inato, sempre estará presente nos momentos de perigo ou ameaça. Entendi que a ansiedade é uma consequência de um estado mental alterado. Compreendi claramente que nunca vou deixar de sentir MEDO. Que minha ignorância sempre esteve "reativa" ao entendimento. Sentir MEDO é naturalmente necessário.

Voltando para casa, já não me sentia “um nada de óculos, touca e maio”, sentia um conforto de ter passado por essa ilesa! Feliz por não ter me afogado. Por ter experenciado uma auto observação num momento tão confuso. E ter entendido também a força desse sentimento que me tirou de dentro d’água. Se não fosse o MEDO, talvez eu não estivesse escrevendo esse texto!


Muitas e muitas vezes nos paralisamos diante de decisões, sonhos, mudanças, relacionamentos, por causa do MEDO. Mas, todos sentimos medo, do novo, do que desconhecemos, do que ainda está por vir. Como um sentimento, concluo que o melhor é ser sentido, observado e acolhido. A mudança não está no que se sente, mas como nos colocamos diante do que estamos sentindo.








 
 
 

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