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O legado de Krishnamacharya: o inventor do Yoga moderno

Você pode nem saber, mas o legado de Krishnamacharya influenciou ou talvez até inventou o yoga que você pratica

Quer você pratique as séries dinâmicas de Pattabhi Jois, os alinhamentos refinados de BKS Iyengar, as posturas clássicas de Indra Devi ou o Vinyasa personalizado de Viniyoga, sua prática provém de uma fonte: um brâmane de um 1, 55m, nascido há mais de cem anos, numa pequena aldeia do sul da Índia.

Ele nunca cruzou um oceano, mas o yoga de Krishnamacharya se espalhou pela Europa, Ásia e Américas. Hoje é difícil encontrar uma tradição de pratica de asana que ele não tenha influenciado. Mesmo que você tenha aprendido com um yogi agora fora das tradições associadas a Krishnamacharya, há uma boa chance de seu professor ter treinado nas linhagens Iyengar, Astanga, ou Viniyoga antes de desenvolver outro estilo. Muitos professores tomaram emprestado vários estilos baseados em Krishnamacharya, criando abordagens únicas, como White Lotus Yoga de Ganga White e ISHTA Yoga de Manny Finger. A maioria dos professores, mesmo de estilos não diretamente ligados ao Krishnamacharya – Sivananda Yoga e Bikram Yoga, por exemplo – foi influenciado por algum aspecto dos ensinamentos de Krishnamacharya.

Muitas de suas contribuições foram tão completamente integradas na estrutura do yoga que sua fonte foi esquecida. Dizem que ele é o responsável pela ênfase moderna em Sirsasana (Invertida sobre a cabeça) e Sarvangasana (Invertida sobre os ombros). Ele foi um pioneiro em refinar posturas, sequenciá-las de maneira ideal e atribuir valor terapêutico a asanas específicos. Ao combinar pranayama e asana, ele tornou as posturas uma parte integrante da meditação, em vez de apenas um passo em direção a ela.

A influência de Krishnamacharya pode ser vista mais claramente na ênfase a prática de asanas que se tornou a assinatura do yoga hoje. Provavelmente nenhum yogi antes dele desenvolveu as práticas físicas tão deliberadamente. No processo, ele transformou o Hatha Yoga – outrora um obscuro remanso do yoga – em sua corrente central. O ressurgimento do Yoga na Índia deve muito às suas inúmeras palestras e demonstrações durante a década de 1930, e seus quatro discípulos mais famosos – Jois, Iyengar, Devi e o filho de Krishnamacharya, TKV Desikachar – desempenharam um papel enorme na popularização do Yoga no Ocidente.

Recuperando as raízes do Yoga

Quando o Yoga Journal me pediu para traçar o perfil do legado de Krishnamacharya, pensei que traçar a história de alguém que morreu há apenas uma década seria uma tarefa fácil. Mas descobri que Krishnamacharya permanece um mistério, até mesmo para sua família. Ele nunca escreveu um livro de memórias completo ou recebeu crédito por suas muitas inovações. Sua vida está envolta em mito. Aqueles que o conheceram bem, envelheceram. Se perdermos as suas recordações, corremos o risco de perder mais do que a história de um dos mais notáveis ​​adeptos do yoga; corremos o risco de perder uma compreensão clara da história da tradição vibrante que herdamos.

É intrigante considerar como a evolução da personalidade deste homem multifacetado ainda influencia o yoga que praticamos hoje.

Krishnamacharya começou sua carreira docente aperfeiçoando uma versão estrita e idealizada do Hatha Yoga . Depois, à medida que as correntes da história o impeliram a adaptar-se, ele tornou-se um dos grandes reformadores do yoga. Alguns de seus alunos lembram-se dele como um professor exigente e volátil; BKS Iyengar me disse que Krishnamacharya poderia ter sido um santo, se não fosse tão mal-humorado e egocêntrico. Outros lembram-se de um mentor gentil que valorizava sua individualidade.

Desikachar, por exemplo, descreve o pai como uma pessoa gentil que muitas vezes colocava as sandálias de seu falecido guru no topo da própria cabeça em um ato de humildade.

Ambos professores permanecem ferozmente leais ao seu guru, mas conheceram Krishnamacharya em diferentes estágios de sua vida; é como se eles se lembrassem de duas pessoas diferentes. Características aparentemente opostas ainda podem ser vistas nos tons contrastantes das tradições que ele inspirou – algumas gentis, outras rigorosas, cada uma apelando a diferentes personalidades e conferindo profundidade e variedade à nossa prática ainda em evolução de hatha yoga.


Emergindo das sombras

O mundo do yoga que Krishnamacharya herdou ao nascer, em 1888, parecia muito diferente do que é hoje. Sob a pressão do domínio colonial britânico, o hatha yoga caiu no esquecimento. Restava apenas um pequeno círculo de praticantes indianos. Mas em meados do século XIX e início do século XX, um movimento revivalista hindu deu nova vida à herança da Índia. Quando jovem, Krishnamacharya mergulhou nessa busca, aprendendo muitas disciplinas clássicas indianas, incluindo o sânscrito, a lógica, ritual, direito e os fundamentos da medicina indiana. Com o tempo, ele canalizaria essa ampla formação para o estudo do Yoga, onde sintetizou a sabedoria dessas tradições.

Como Krishnamacharya sempre contava a história, ele encontrou um velho no portão do templo que lhe indicou um mangueiral próximo. Krishnamacharya caminhou até o bosque, onde desmaiou, exausto. Quando ele se levantou, percebeu que três yogis estavam reunidos. Seu ancestral Nathamuni sentou-se no meio. Krishnamacharya prostrou-se e pediu instruções. Durante horas, Nathamuni cantou-lhe versos do Yogarahasya (A Essência do Yoga), um texto perdido há mais de mil anos. Krishnamacharya memorizou e posteriormente transcreveu esses versos.

As sementes de muitos elementos dos ensinamentos inovadores de Krishnamacharya podem ser encontradas neste texto, que está disponível em uma tradução para o inglês (Yogarahasya, traduzido por TKV Desikachar, Krishnamacharya Yoga Mandiram, 1998). Embora a história de sua autoria possa parecer fantasiosa, ela aponta para um traço importante na personalidade de Krishnamacharya: ele nunca reivindicou originalidade. Na sua opinião, o yoga pertencia a Deus. Todas as suas ideias, originais ou não, ele atribuiu a textos antigos ou ao seu guru.

Após sua experiência no santuário de Nathamuni, Krishnamacharya continuou sua exploração de um conjunto de disciplinas clássicas indianas, obtendo diplomas em filologia, lógica, divindade e música. Ele praticava yoga a partir de rudimentos que aprendeu por meio de textos e de entrevistas ocasionais com um yogi, mas ansiava por estudar yoga mais profundamente, como seu pai havia recomendado. Um professor universitário viu Krishnamacharya praticando seus asanas e o aconselhou a procurar um mestre chamado Sri Ramamohan Brahmachari, um dos poucos mestres de hatha yoga restantes.

Sabemos pouco sobre Brahmachari, exceto que ele morava com sua esposa e três filhos em uma caverna remota. Segundo o relato de Krishnamacharya, ele passou sete anos com esse professor, memorizando o Yoga Sutra de Patanjali, aprendendo os asanas e pranayamas e estudando os aspectos terapêuticos do yoga. Durante seu aprendizado, ele dominou 3.000 asanas e desenvolveu algumas de suas habilidades mais notáveis, como parar o pulso. Em troca de instrução, Brahmachari pediu a seu fiel aluno que retornasse à sua terra natal para ensinar yoga e estabelecer uma família.

A educação de Krishnamacharya o preparou para um cargo em diversas instituições de prestígio, mas ele renunciou a essa oportunidade, optando por honrar o pedido de despedida de seu guru. Apesar de todo o seu treinamento, Krishnamacharya voltou para casa, na pobreza. Na década de 1920, ensinar yoga não era lucrativo. Os alunos eram poucos e Krishnamacharya foi forçado a aceitar um emprego como capataz em uma plantação de café. Mas, nos dias de folga viajava pela província dando palestras e demonstrações de yoga. Krishnamacharya procurou popularizar o yoga demonstrando os siddhis, as habilidades supranormais do corpo yogi. Essas demonstrações, destinadas a estimular o interesse por uma tradição moribunda, incluíam suspender o pulso, parar carros com as próprias mãos, realizar asanas difíceis e levantar objetos pesados ​​com os dentes. Para ensinar yoga às pessoas, Krishnamacharya sentia que primeiro ele precisava chamar a atenção delas.

Através de um casamento arranjado, Krishnamacharya honrou o segundo pedido de seu guru. Os antigos yogis eram renunciantes, que viviam na floresta sem casa ou família. Mas o guru de Krishnamacharya queria que ele aprendesse sobre a vida familiar e ensinasse um yoga que beneficiasse o chefe de família moderno. No início, este se revelou um caminho difícil. O casal vivia em uma pobreza tão profunda que Krishnamacharya usava uma tanga costurada com tecido rasgado do sari de sua esposa. Mais tarde, ele recordaria esse período como o mais difícil de sua vida, mas as dificuldades apenas fortaleceram a determinação ilimitada de Krishnamacharya em ensinar yoga.

Desenvolvendo Ashtanga Vinyasa

A sorte de Krishnamacharya melhorou em 1931, quando ele recebeu um convite para lecionar no Sanskrit College em Mysore. Lá ele recebeu um bom salário e a chance de se dedicar integralmente ao ensino de yoga. A família governante de Mysore há muito defende todos os tipos de artes da India, apoiando o revigoramento da cultura indiana. Eles já patrocinavam o Hatha Yoga há mais de um século, e sua biblioteca abrigava uma das mais antigas compilações ilustradas de asanas agora conhecidas, o Sritattvanidhi (traduzido para o inglês pelo estudioso de sânscrito Norman E. Sjoman em The Yoga Tradition of the Mysore Palace).

Assim começou um dos períodos mais férteis de Krishnamacharya, durante o qual ele desenvolveu o que hoje é conhecido como Ashtanga Vinyasa Yoga. Como os alunos de Krishnamacharya eram principalmente meninos ativos, ele recorreu a muitas disciplinas - incluindo yoga, ginástica e luta livre indiana - para desenvolver sequências de asanas executadas dinamicamente com o objetivo de desenvolver a aptidão física. Este estilo vinyasa usa os movimentos de Surya Namaskar (Saudação ao Sol) para entrar em cada asana e depois sair novamente. Cada movimento é coordenado com a respiração e um drshti, “pontos de concentração do olhar” que focam os olhos e instilam concentração meditativa. Eventualmente, Krishnamacharya padronizou as sequências de postura em três séries que consistem em asanas primários, intermediários e avançados. Os alunos foram agrupados em ordem de experiência e habilidade, memorizando e dominando cada sequência antes de avançar para a próxima.

Embora Krishnamacharya tenha desenvolvido esta forma de praticar yoga durante a década de 1930, ela permaneceu praticamente desconhecida no Ocidente por quase 40 anos. Recentemente, tornou-se um dos estilos de yoga mais populares, principalmente devido ao trabalho de um dos alunos mais fiéis e famosos de Krishnamacharya, K. Pattabhi Jois. (foto de Pattabhi Jois muito jovem).

Jois reteve muitos detalhes de seus anos de estudo com Krishnamacharya. Durante décadas, ele preservou esse trabalho com grande devoção, refinando e flexionando as sequências de asanas sem modificações significativas, da mesma forma que um violinista clássico poderia matizar o fraseado de um concerto de Mozart sem nunca alterar uma nota. Jois costuma dizer que o conceito de vinyasa veio de um texto antigo chamado Yoga Kuruntha. Infelizmente, o texto desapareceu; ninguém que vive agora o conheceu. Existem tantas histórias sobre sua descoberta e conteúdo – ouvi pelo menos cinco relatos conflitantes – que alguns questionam sua autenticidade. Quando perguntei a Jois se ele já havia lido o texto, ele respondeu: “Não, apenas Krishnamacharya”. Jois então minimizou a importância dessa escritura, apontando muitos outros textos que também deram forma ao yoga que ele aprendeu com Krishnamacharya, incluindo o Hatha Yoga Pradipika, o Yoga Sutra e a Bhagavad Gita.

Quaisquer que sejam as raízes do Ashtanga Vinyasa, hoje ele é um dos mais influentes componentes do legado do legado de Krishnamacharya. Talvez esse método, originalmente destinado às crianças e jovens, proporcione à nossa cultura, altamente energética e exteriorizada, uma entrada acessível para um caminho de espiritualidade mais profunda. Nas últimas três décadas, vem crescendo de forma estável o número de yogis que se sentem atraídos pela sua precisão e intensidade. Muitos deles fizeram a peregrinação a Mysore, onde Jois ainda dá instrução.

Despedaçando uma Tradição

Krishnamachrya’s class at the Mysore Palace

Mesmo quando Krishnamacharya ensinava crianças e jovens no Palácio de Mysore, suas demonstrações públicas atraíam uma audiência mais variada. Ele apreciava o desafio de apresentar yoga a pessoas de diferentes backgrounds. Nas frequentes viagens, que chamava de “excursões de propaganda”, ele introduziu o yoga aos soldados britânicos, aos maharajas muçulmanos, e indianos de outras crenças religiosas. Krishnamacharya enfatizava que o yoga podia servir a qualquer credo e adaptou sua abordagem de forma a respeitar a fé de cada aluno. No entanto, ao passo que transpunha diferenças culturais, religiosas e de classe, a atitude de Krishnamacharya com relação às mulheres permanecia patriarcal. O destino, contudo, pregou-lhe uma peça: o primeiro aluno que traria o seu yoga para o palco do mundo apresentou-se para instrução vestindo um sari. E ela, além disso, era uma ocidental! A mulher, que se tornou conhecida como Indra Devi (nascera Zhenia Labunskaia, na pré-soviética Latvia) era amiga da família real de Mysore. Após assistir a uma das demonstrações de Krishnamacharya, ela pediu para ser instruída. De início, Krishnamacharya recusou-se a ensiná-la.


Disse-lhe que sua escola não aceitava nem estrangeiros nem mulheres. Mas Devi insistiu, induzindo o Maharaja a persuadir seu brâmane. Relutante, Krishnamacharya começou as lições com ela, submetendo-a a severas orientações quanto à dieta e a um horário difícil, destinado a quebrar sua determinação. Ela enfrentou cada desafio imposto por Krishnamacharya, tornando-se finalmente sua boa amiga e aluna exemplar. Após um ano inteiro de aprendizado, Krishnamacharya instruiu Devi para que se tornasse professora de yoga. Pediu-lhe que trouxesse um caderno e passou vários dias ditando-lhe lições sobre o aprendizado de yoga, dieta e pranayama. Extraindo material desse ensinamento, Devi veio a escrever o primeiro best-seller sobre hatha yoga, Forever Young, Forever Healthy (Prentice Hall, Inc., 1953). Nos anos posteriores ao seu estudo com Krishnamacharya, Devi fundou a primeira escola de yoga em Shangai, China, onde Madame Chiang Kai-Shek tornou-se sua aluna. Finalmente, ao convencer os líderes soviéticos de que yoga não era uma religião, foi ela que abriu ao yoga as portas da União Soviética, onde até então ele era ilegal. Em 1947, ela se mudou para os Estados Unidos. Vivendo em Hollywood, tornou-se conhecida como a “Primeira Dama do Yoga”, atraindo alunos célebres como Marilyn Monroe, Elisabeth Arden, Greta Garbo e Gloria Swanson. Graças a Devi, o yoga de Krishnamacharya gozou seu primeiro sucesso internacional.

Embora ela tenha estudado com Krishnamacharya durante o período de Mysore, o yoga que Indra Devi veio ensinar tem pouca semelhança com o Ashtanga Vinyasa de Jois. Prenunciando o yoga altamente individualizado que ele desenvolveria nos anos posteriores, Krishnamacharya ensinou Devi de uma forma mais gentil, acomodando-se, mas desafiando suas limitações físicas.

Devi manteve esse tom gentil em seus ensinamentos. Embora seu estilo não empregasse vinyasa, ela usava os princípios de sequenciamento de Krishnamacharya para que suas aulas expressassem uma jornada deliberada, começando com posturas em pé, progredindo em direção a um asana central seguido de posturas complementares, concluindo então com relaxamento. Tal como aconteceu com Jois, Krishnamacharya ensinou-a a combinar pranayama e asana. Os alunos de sua linhagem ainda realizam cada postura com técnicas de respiração prescritas.

Ela também adicionou um aspecto devocional ao seu trabalho, que chama de Sai Yoga. A postura principal de cada aula inclui uma invocação, de modo que o fulcro de cada prática envolve uma meditação em forma de oração ecumênica. Embora ela tenha desenvolvido esse conceito por conta própria, ele pode ter estado presente de forma embrionária nos ensinamentos que recebeu de Krishnamacharya. Mais tarde em sua vida, Krishnamacharya também recomendou o canto devocional na prática de asana.

Embora Devi tenha morrido em abril de 2002, aos 102 anos, suas seis escolas de yoga ainda estão ativas em Buenos Aires, Argentina. Até três anos atrás, ela ainda ensinava asanas. Já com noventa anos, ela continuou viajando pelo mundo, levando a influência de Krishnamacharya a um grande número de seguidores em toda a América do Norte e do Sul. Seu impacto nos Estados Unidos diminuiu quando ela se mudou para a Argentina em 1985, mas seu prestígio na América Latina se estende muito além da comunidade do yoga.

Talvez seja difícil encontrar alguém em Buenos Aires que não a conheça. Ela tocou todos os níveis da sociedade latina: o motorista de táxi que me levou à sua casa para uma entrevista descreveu-a como “uma mulher muito sábia”; no dia seguinte, o presidente da Argentina, Menem, veio pedir suas bênçãos e conselhos. As seis escolas de yoga da Devi oferecem 15 aulas de asana diariamente, e os graduados do programa de treinamento de professores de quatro anos recebem um diploma de nível universitário reconhecido internacionalmente.

Instruindo Iyengar

Durante o período em que instruiu Devi e Jois, Krishnamacharya também ensinou brevemente um menino chamado BKS Iyengar, que cresceria e desempenharia talvez o papel mais significativo de qualquer pessoa em trazer o hatha yoga para o Ocidente. É difícil imaginar como seria o nosso yoga sem as contribuições de Iyengar, especialmente a sua articulação sistemática e detalhada de cada asana, a sua investigação em aplicações terapêuticas e o seu sistema de formação rigoroso e multifacetado que produziu tantos professores influentes.

Também é difícil saber o quanto o treinamento de Krishnamacharya afetou o desenvolvimento posterior de Iyengar. Embora intenso, o mandato de Iyengar com seu professor durou apenas um ano. Junto com a devoção ardente ao yoga que ele evocou em Iyengar, talvez Krishnamacharya tenha plantado as sementes que mais tarde germinariam no yoga maduro de Iyengar. (Algumas das características pelas quais o yoga de Iyengar é conhecido – particularmente, modificações de postura e uso do yoga para curar – são bastante semelhantes àquelas que Krishnamacharya desenvolveu em seu trabalho posterior.) Talvez qualquer investigação profunda sobre o hatha yoga tenda a produzir resultados paralelos. De qualquer forma, Iyengar sempre reverenciou seu guru de infância. Ele ainda diz: “Sou um pequeno modelo de yoga; meu guruji era um grande homem.”

O destino de Iyengar não era aparente a princípio. Quando Krishnamacharya convidou Iyengar para sua casa – a esposa de Krishnamacharya era irmã de Iyengar – ele previu que o adolescente rígido e doente não teria sucesso no yoga. Na verdade, o relato de Iyengar sobre sua vida com Krishnamacharya parece um romance de Dickens. Krishnamacharya poderia ser um capataz extremamente severo. No início, ele mal se preocupou em ensinar Iyengar, que passava os dias regando os jardins e realizando outras tarefas. A única amizade de Iyengar veio de seu colega de quarto, um garoto chamado Keshavamurthy, que por acaso era o protegido favorito de Krishnamacharya. Numa estranha reviravolta do destino, Keshavamurthy desapareceu uma manhã e nunca mais voltou. Krishnamacharya estava a poucos dias de uma importante demonstração no yogashala e contava com seu aluno estrela para realizar asanas. Confrontado com essa crise, Krishnamacharya rapidamente começou a ensinar a Iyengar uma série de posturas difíceis.

Iyengar praticou diligentemente e, no dia da demonstração, surpreendeu Krishnamacharya com um desempenho excepcional. Depois disso, Krishnamacharya começou a instruir seriamente seu aluno determinado. Iyengar progrediu rapidamente, começando a assistir aulas no yogashala e acompanhando Krishnamacharya em passeios de demonstração de yoga. Mas Krishnamacharya continuou com seu estilo autoritário de instrução. Certa vez, quando Krishnamacharya lhe pediu para demonstrar Hanumanasana (uma abertura completa , Iyengar reclamou que nunca havia aprendido a postura. "Faça isso!" Krishnamacharya comandou. Iyengar obedeceu, rompendo os tendões da coxa.

O rápido aprendizado de Iyengar terminou abruptamente. Depois de uma demonstração de yoga na província de Karnataka, no norte, um grupo de mulheres pediu instrução a Krishnamacharya. Ele escolheu Iyengar, o mais novo dos alunos que estavam com ele, para conduzir as mulheres numa aula separada, uma vez que homens e mulheres não estudavam juntos naquela época. O ensinamento de Iyengar impressionou-as. A pedido delas, Krishnamacharya designou Iyengar a permanecer como seu instrutor.

Ensinar representou uma promoção para Iyengar, mas pouco fez para melhorar sua situação. O ensino de Yoga ainda era uma profissão marginal. Às vezes, lembra Iyengar, ele comia apenas um prato de arroz em três dias, sustentando-se principalmente com água da torneira. Mas ele se dedicou obstinadamente ao yoga. Na verdade, diz Iyengar, ele estava tão obcecado que alguns vizinhos e familiares o consideraram louco. Ele praticava por horas, usando pedras pesadas para forçar suas pernas em Badha Konasana (postura de borboleta) e curvando-se para trás sobre um rolo compressor estacionado na rua para melhorar seu Urdha Dhanurasana (Postura do arco para cima). Preocupado com seu bem-estar, o irmão de Iyengar arranjou seu casamento com Ramamani, de 16 anos. Felizmente para Iyengar, Ramamani respeitou o seu trabalho e tornou-se uma parceira importante na sua investigação dos asanas.

A centenas de quilômetros de seu guru, a única maneira de Iyengar aprender mais sobre asanas era explorar posturas com seu próprio corpo e analisar seus efeitos. Com a ajuda de Ramamani, Iyengar refinou e aprimorou os asanas que aprendeu com Krishnamacharya.

Como Krishnamacharya, à medida que Iyengar ganhava alunos lentamente, ele modificou e adaptou posturas para atender às necessidades de seus alunos. E, assim como Krishnamacharya, Iyengar nunca hesitou em inovar. Ele abandonou em grande parte o estilo de prática vinyasa de seu mentor. Em vez disso, ele pesquisou constantemente a natureza do alinhamento interno, considerando o efeito de cada parte do corpo, até mesmo da pele, no desenvolvimento de cada postura. Como muitas pessoas menos aptas do que os jovens estudantes de Krishnamacharya vinham a Iyengar para instrução, ele aprendeu a usar acessórios para ajudá-los. E como alguns de seus alunos estavam doentes, Iyengar começou a desenvolver asanas como prática de cura, criando programas terapêuticos específicos. Além disso, Iyengar passou a ver o corpo como um templo e o asana como uma oração. A ênfase de Iyengar nos asanas nem sempre agradou seu antigo professor. Embora Krishnamacharya tenha louvado a habilidade de Iyengar na prática de asana, na celebração dos 60 anos de Iyengar, ele também sugeriu que era hora de ele abandonar asana e focar-se na meditação.

Durante as décadas de 1930, 40 e 50, a reputação de Iyengar como professor e curandeiro cresceu. Ele adquiriu alunos conhecidos e respeitados como o filósofo-sábio Jiddhu Krishnamurti e o violinista Yehudi Menuhim, que ajudaram a atrair estudantes ocidentais para seus ensinamentos. Na década de 1960, o yoga estava se tornando parte da cultura mundial e Iyengar foi reconhecido como um dos seus principais embaixadores.


Sobrevivendo aos anos magros

Mesmo enquanto seus alunos prosperavam e espalhavam o evangelho do yoga, o próprio Krishnamacharya novamente enfrentou tempos difíceis. Em 1947, as matrículas no yogashala haviam diminuído. Segundo Jois, restaram apenas três alunos. O patrocínio do governo terminou; a Índia conquistou a sua independência e os políticos que substituíram a família real de Mysore tinham pouco interesse no yoga. Krishnamacharya lutou para manter a escola, mas em 1950 ela fechou. Professor de yoga de 60 anos, Krishnamacharya se viu na difícil posição de ter que recomeçar.

Ao contrário de alguns de seus protegidos, Krishnamacharya não desfrutou das vantagens da crescente popularidade do yoga. Ele continuou a estudar, ensinar e desenvolver yoga quase na obscuridade. Iyengar especula que este período solitário mudou a disposição de Krishnamacharya. Na opinião de Iyengar, Krishnamacharya poderia permanecer indiferente sob a proteção do Maharaja. Mas por conta própria, tendo que encontrar estudantes particulares, Krishnamacharya teve mais motivação para se adaptar à sociedade e desenvolver maior compaixão.

Como na década de 1920, Krishnamacharya lutou para encontrar trabalho, acabou deixando Mysore e aceitando um cargo de professor no Vivekananda College em Chennai. Novos estudantes apareceram lentamente, incluindo pessoas de todos os tipos de vida e em diversos estados de saúde, e Krishnamacharya descobriu novas maneiras de ensiná-los. À medida que chegavam alunos com menos aptidão física, incluindo alguns com deficiência, Krishnamacharya concentrou-se em adaptar as posturas à capacidade de cada aluno.

Por exemplo, ele instruiria um aluno a realizar Paschumottanasana (flexão a frente sentado) com os joelhos retos para alongar os músculos posteriores, enquanto um aluno mais rígido poderia aprender a mesma postura com os joelhos levemente dobrados. Da mesma forma, ele variava a respiração para atender às necessidades do aluno, às vezes fortalecendo o abdômen, enfatizando a expiração, outras vezes apoiando as costas enfatizando a inspiração. Krishnamacharya variou a duração, a frequência e a sequência dos asanas para ajudar os alunos a atingir objetivos específicos de curto prazo, como a recuperação de uma doença. À medida que a prática do aluno avançava, ele os ajudava a refinar os asanas até a forma ideal. À sua maneira individual, Krishnamacharya ajudou seus alunos a passar de um yoga que se adaptava às suas limitações para um yoga que ampliava suas habilidades. Esta abordagem, que agora é geralmente chamada de Viniyoga, tornou-se a marca registrada dos ensinamentos de Krishnamacharya durante suas últimas décadas.

Krishnamacharya parecia disposto a aplicar tais técnicas a quase todos os problemas de saúde. Certa vez, um médico pediu-lhe que ajudasse uma vítima de derrame. Krishnamacharya manipulou os membros sem vida do paciente em várias posturas, uma espécie de fisioterapia “yoguica”. Tal como aconteceu com tantos estudantes de Krishnamacharya, a saúde do homem melhorou – e também a fama de Krishnamacharya como responsável por curas.

Foi essa reputação como terapeuta que atrairia a Krishnamacharya seu último maior discípulo. Mas, naquele tempo, ninguém – muito menos Krishnamacharya – teria adivinhado que seu filho, T.K.V. Desikachar se tornaria o renomado yogi que comunicaria ao mundo do yoga no Ocidente toda a abrangência da carreira de Krishnamacharya e, especialmente, seus últimos ensinamentos.


Mantendo Viva a Chama

Embora nascido numa família de yogis, Desikachar não sentiu desejo algum de seguir essa vocação. Quando criança, fugia quando seu pai o chamava para fazer asanas. Krishnamacharya pegou-o uma vez, amarrou seus pés e mãos em Baddhapadmasana (Postura do Lótus com Flexão), e deixou-o amarrado por meia hora. Pedagogia como essa não motivou Desikachar a estudar yoga, mas finalmente a inspiração viria por outros meios.

Depois de graduar-se na universidade, com um diploma em Engenharia, Desikachar foi encontrar-se à família para uma curta visita. Ele estava a caminho de Delhi, onde lhe havia sido oferecido um bom emprego numa firma européia. Uma manhã, estava Desikachar sentado no degrau da frente lendo um jornal, quando avistou um enorme e desajeitado carro americano subindo a rua estreita em frente à casa de seu pai. Justo então, Krishnamacharya saiu à rua, usando apenas um dhoti e as marcas sagradas que significavam sua devoção de toda a vida ao deus Vishnu. O carro parou e uma senhora de meia-idade, parecendo européia, saltou do banco de trás, gritando “Professor, Professor!”. Ela irrompeu em direção a Krishnamacharya, lançou seus braços ao redor dele e abraçou-o.

O sangue deve ter desaparecido do rosto de Desikachar quando seu pai retribuiu imediatamente aquele abraço. Naqueles dias, senhoras ocidentais e brâmanes absolutamente não se abraçavam – especialmente não no meio da rua, e especialmente não no caso de um brâmane tão observante quanto Krishnamacharya. Quando a mulher saiu, “Por quê??!!!” foi tudo o que Desikachar conseguiu balbuciar. Krishnamacharya explicou que a mulher estava estudando yoga com ele. Graças à ajuda de Krishnamacharya, ela tinha conseguido dormir na noite anterior sem remédios, pela primeira vez em 20 anos. Talvez a reação de Desikachar a essa revelação tenha sido providência ou karma; certamente, essa evidência do poder do yoga proporcionou-lhe uma curiosa epifania, que mudaria sua vida para sempre. Naquele instante, ele resolveu aprender o que seu pai sabia.

Krishnamacharya não deu boas vindas ao recém-descoberto interesse em yoga de seu filho. Ele disse a Desikachar que continuasse com sua carreira de engenheiro e deixasse o yoga em paz. Desikachar recusou-se a ouvir. Rejeitou o emprego em Delhi, encontrou trabalho numa firma local, e incomodou seu pai em busca de ensinamentos. Finalmente, Krishnamacharya cedeu. Mas, para assegurar-se da seriedade de seu filho – ou talvez para desencorajá-lo -, Krishnamacharya exigiu que as aulas começassem às 3h30 cada manhã. Desikachar concordou em submeter-se às exigências do pai, mas insistiu em uma condição de sua parte: nada de Deus. Engenheiro de nariz empinado, Desikachar achava que não tinha necessidade alguma de religião.

Krishnamacharya respeitou esse desejo e eles começaram suas aulas com asanas e canto do Yogasutra de Patanjali. Enquanto viveram no apartamento de uma peça, a família inteira foi forçada a juntar-se a eles, ainda que meio dormindo. As lições continuaram por 28 anos, embora nem sempre tão cedo.

Durante os anos em que ensinou seu filho, Krishnamacharya continuou a refinar a abordagem de Viniyoga, concebendo métodos de yoga para pessoas doentes, grávidas, crianças pequenas – e, é claro, aqueles em busca de iluminação espiritual. Ele dividiu a prática e yoga em três estágios, representando juventude, meia idade e velhice: primeiro, desenvolver força muscular e flexibilidade; segundo, manter a saúde durante os anos de trabalho e manutenção da família; finalmente, ir além da prática física para concentrar-se em Deus.

Desikachar observou que, à medida que os alunos progrediam, Krishnamacharya começava a dar ênfase não apenas a asanas mais avançadas, mas também aos aspectos espirituais do yoga. Desikachar deu-se conta de que, para seu pai, cada ação deveria ser um ato de devoção, de que cada asana deveria conduzir à calma interior. De forma semelhante, a ênfase colocada por Krishnamacharya na respiração tinha a intenção de transmitir implicações espirituais junto com os benefícios fisiológicos.

De acordo com Desikachar, Krishnamacharya descrevia o ciclo da respiração como um ato de entrega.

“Inala, e Deus se aproxima de ti. Retém a inalação, e Deus permanece contigo. Exala, e tu te aproximas de Deus. Retém a exalação, e entrega-te a Ele”.

Durante os últimos anos de sua vida, Krishnamacharya introduziu o canto Védico na prática de yoga, sempre adaptando o número de versos para corresponder ao tempo que o aluno pudesse sustentar a postura. Essa técnica pode ajudar os alunos a manter o foco, sendo também um passo em direção à meditação.

Quando entrava nos aspectos espirituais do yoga, Krishnamacharya sempre respeitava o background cultural de cada aluno. Uma de suas alunas de longo tempo, Patrícia Miller, que atualmente ensina em Washington D.C., lembra-se dele conduzindo meditação e oferecendo alternativas. Ele instruía os alunos a fechar os olhos e observar o espaço entre as sobrancelhas, e então dizia: “Pense em Deus. Se não em Deus, no sol. Se não no sol, em seus pais”. Krishnamacharya estabelecia apenas uma condição, explica Miller: “a de que nós reconhecêssemos um poder maior do que nós mesmos”.


Preservando um Legado

Hoje em dia, Desikachar expande o legado de seu pai supervisionando o Krishnamacharya Yoga Mandiram, em Chennai, Índia, onde todas as abordagens contrastantes de Krishnamacharya ao yoga vêm sendo ensinadas e seus escritos traduzidos e publicados. Com o passar do tempo, Desikachar abraçou a completa amplitude do ensinamento de seu pai, incluindo sua veneração a Deus. Mas Desikachar também compreende o ceticismo ocidental e insiste na necessidade de despir o yoga de seus arreios hindus, para que ele permaneça um veículo para todas as pessoas.

A visão de mundo de Krishnamacharya estava enraizada na filosofia Védica; a do Ocidente moderno está enraizada na Ciência. Formado em ambas, Desikachar vê o seu papel como o de um tradutor, transmitindo a sabedoria antiga de seu pai aos ouvidos modernos. O principal foco tanto de Desikachar quanto de seu filho, Kausthub, está em compartilhar essa antiga sabedoria do yoga com a próxima geração. “Nós devemos às crianças um futuro melhor”, ele diz. Sua organização oferece aulas de yoga para crianças, incluindo as deficientes. Além de publicar livros de histórias apropriadas à idade e de orientação espiritual, Kausthub está desenvolvendo vídeos para demonstrar as técnicas de como ensinar yoga aos pequenos, usando métodos inspirados no trabalho de seu avô em Mysore.

Embora Desikachar tenha passado quase três décadas como aluno de Krishnamacharya, ele afirma ter recolhido apenas o básico dos ensinamentos de seu pai. Tanto os interesses quanto a personalidade de Krishnamacharya se assemelhavam a um caleidoscópio; yoga não era senão uma pequena parte do que ele conhecia. Krishnamacharya também perseguiu disciplinas como filologia, astrologia e também música. Em seu próprio laboratório Ayurvédico, ele preparava receitas de ervas.

Na Índia, ele ainda é mais bem conhecido como curador do que como yogi. Ele também era cozinheiro gourmet, horticultor e um astuto jogador de cartas. Mas a erudição enciclopédica que o fez às vezes parecer alheio, ou mesmo arrogante, em sua juventude – “intelectualmente intoxicado”, como Iyengar educadamente o caracteriza -, finalmente deu espaço a um anseio por comunicação. Krishnamacharya compreendeu que muito do conhecimento tradicional indiano, que ele possuía como um tesouro, estava desaparecendo, e assim ele abriu seu estoque de conhecimentos a qualquer pessoa com um saudável interesse e suficiente disciplina. Ele sentiu que o yoga tinha que se adaptar ao mundo moderno, ou desapareceria.

Uma máxima indiana sustenta que, a cada três séculos, alguém nasce para re-energizar uma tradição. Talvez Krishnamacharya fosse um tal avatar. Tendo enorme respeito pelo passado, ele também não hesitou em experimentar e inovar. Ao desenvolver e refinar diferentes abordagens, ele tornou o yoga acessível a milhões. Esse, no fim, é o seu maior legado.

Assim como diversas se tornaram as práticas nas diferentes linhagens de Krishnamacharya, paixão e fé no yoga permanecem como sua herança comum. A mensagem tácita que seu ensinamento oferece é de que o yoga não é uma tradição estática; é uma arte viva, que respira e cresce constantemente através dos experimentos e da aprofundada vivência de cada praticante.


Por Fernando Pagés Ruiz Tradução para o português da Profª Maria Nazaré Cavalcanti

Fernando Pagés Ruiz é colunista, jornalista pesquisador e editor de Yoga journal. Vive em Lincoln, Nebraska. Esse artigo foi publicado na revista Yogajournal de Mai/Jun 2001.

Sua versão original em inglês pode ser encontrada on-line no seguinte endereço:https://www.yogajournal.com/yoga-101/history-of-yoga/krishnamacharya-s-legacy/

 
 
 

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