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“Thank you, New Zealand” - sobre TKV Desikachar

Tradução de: TKV Desikachar: A Tribute. “Thank you, New Zealand” p. 13-17. - Krishnamacharya Yoga Mandiram, Chennai. Por Beatriz Avila Vasconcelos.

A infância de Desikachar foi bastante parecida com a de outras crianças na Índia durante os anos de 1940 e 1950. Foi à escola, roubou jaca do quintal do vizinho com seus amigos e gastou um bocado de tempo subindo em coqueiros que abundavam em sua vizinhança ou fazendo caminhadas até os montes Chamundi. Uma peça favorita que Desikachar e seus colegas de escola gostavam de pregar em seus professores era a de colocar uma Vada quente (uma espécie de rosquinha) sobre a cadeira do professor e observar a sua reação quando sentava. Krishnamacarya tinha pouca tolerância com as brincadeiras de seu filho, mas a mãe de Desikachar, Namagiriammal, sempre intervinha e tirava o filho da enrascada.

Havia uma coisa que fazia com que a experiência de Desikachar, ao crescer neste lar, fosse diferente da de outras crianças: o fato de que seu pai era um mestre de yoga exigente, estrito e influente. Quando criança Desikachar não teve muito interesse pelo yoga, e seu pai não o forçou a praticar. A seu próprio modo, contudo, Krishnamacarya alimentou até mesmo essa pequena chama de interesse. Tentava levar Desikachar a praticar contando-lhe que precisava que ele demonstrasse alguns asanas diante do rei de Mysore. Às vezes isso funcionava, às vezes não. Às vezes inspirava seu filho à prática apelando para o seu lado competitivo, convidando-o a participar das competições de yoga que ele organizava para os estudantes jovens do Yoga Shala de Mysore. Tudo isto atiçava o interesse do adolescente Desikachar apenas temporariamente.


Ao chegar aos dezoito anos, Desikachar começou os seus estudos de engenharia civil na Universidade de Mysore. Nesta época, sua família mudara-se para Chennai. A fim de completar sua graduação, Desikachar teve que ficar em Mysore e ele apreciou este tempo longe da vida familiar. Ele era um estudante brilhante e promissor e formou-se como o melhor da turma. Imediatamente, foi-lhe oferecido um emprego lucrativo no norte da Índia, o que o levaria para ainda mais longe de sua família.

Seus pais estavam entusiasmados com ele; Desikachar era o primeiro engenheiro na família. E ele estava satisfeito com o fato de que seria capaz de ajudar a sustentá-los.

Krishnamacharya estava contente com a escolha de seu filho. Ele jamais insistiu para que Desikachar se tornasse um professor de Yoga. Afinal, ele próprio teve que enfrentar muitas dificuldades, tanto financeiras quanto em termos de status social, devido à sua escolha de ensinar Yoga. Yoga não era um dos caminhos profissionais prediletos naqueles tempos. Jamais ocorreu à família que Desikachar escolheria ensinar Yoga, tal como seu pai o fizera. Todos esperavam dele que se tornasse engenheiro civil e construísse pontes.

Mas um feriado em Chennai mudou o curso de sua vida. Era por volta do ano de 1961. Desikachar estava em casa visitando sua família. Era bem cedinho e ele estava sentado na varanda lendo o jornal. De repente, um carrão, daqueles bem caros, estacionou em frente à humilde casa da família. Desikachar viu com grande surpresa e algum espanto quando uma mulher com aparência de ocidental, na faixa de seus 50 anos, saltou do carro e correu em direção à casa. Ele podia ouvir seus gritos: “Professor, professor!”


Antes mesmo que Desikachar pudesse se aproximar dela e averiguar o que ela queria, Krishnamacharya saiu da casa e deu boas-vindas à senhora de digno aspecto. Ela abraçou-o calorosamente e exclamou, “Obrigada, muito obrigada!” Krishnamacharya levou-a para dentro da casa, deixando Desikachar perplexo e chocado, em pé, sozinho, na varanda. É ainda incomum ver na Índia homens e mulheres tocarem-se afetuosamente uns aos outros em público. Isto vale mesmo para casais casados, razão pela qual Desikachar ficou tão abismado ao ver uma mulher ocidental abraçar seu pai tão conservador. Depois que Krishnamacharya despediu-se da mulher no portão de sua casa, Desikachar perguntou-lhe quem era a mulher e porque ela o abraçara calorosamente. Krishnamacharya contou-lhe que a mulher era uma neo-zelandesa. “É a Senhora Malvenan,” disse ele. “ Ela vinha sofrendo de insônia. A noite passada foi a primeira noite, em muitos anos, em que ela foi capaz de dormir sem tomar remédio. Avassalada por grande alegria, ela veio para me agradecer. Eu a estive tratando nos últimos poucos meses”.

Naquele momento, algo mudou para Desikachar. Ele ouvira anteriormente falar muitas vezes das habilidades curativas de seu pai, mas esta era a primeira vez que ele via o poder do trabalho de seu pai em ação. Mais tarde ele se lembraria do incidente: “Eu estava pasmo com o fato de que essa mulher rica, que poderia custear os melhores tratamentos médicos ocidentais, estava encontrando uma cura com meu pai, que era um homem tão simples, que não sabia nada de inglês nem de medicina moderna. Foi ali que eu me dei conta de quão grande homem ele era e quão grande era o ensinamento que ele tinha a partilhar com as pessoas. Foi nesse momento que decidi abdicar completamente de minha carreira e tornar-me um aluno de Yoga.”


Logo de início, Krishnamacharya relutou em aceitar a decisão de seu filho, mas a dedicação de Desikachar aos estudos convenceu-o da seriedade da intenção de seu filho. Foi o começo de uma longa e importante relação entre os dois homens. Krishnamacharya era agora para Desikachar mais que um pai, ele era também um professor. Desikachar não foi muito mais tempo um engenheiro de pontes, mas ele começaria logo a construir pontes de outro tipo – entre os ensinamentos de seu pai e alunos do mundo todo. Frequentemente ele gosta de contar aos seus novos alunos a história de como ele decidiu tornar-se um professor de Yoga, mostrando-se grato à Senhora da Nova Zelândia por abrir-lhe os olhos ao verdadeiro valor da obra e dos ensinamentos de seu pai.

 
 
 

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