top of page

Liberdade - a capacidade de expressar sua própria natureza


Talvez a liberdade não seja exatamente aquilo que aprendemos a imaginar.

Muitas vezes pensamos em liberdade como a possibilidade de fazer o que queremos, na hora que queremos, sem limites, sem restrições. Mas, olhando mais de perto, percebemos que isso nem sempre nos torna livres. Às vezes apenas nos deixa à mercê dos nossos impulsos, hábitos e reações. Estamos a mercê da mente que nos "arrasta" automaticamente.

Recentemente me veio uma percepção muito simples: a verdadeira liberdade não parece estar na ausência de disciplina. Ela parece nascer quando existe maturidade suficiente para escolher conscientemente o que fazer com a própria vida.

Lembrei então de um poema que diz:

"Eu não sou eu. Sou esse que caminha ao meu lado..."

Talvez todos nós conheçamos essa experiência.

Existe uma parte de nós que fala sem parar, que se irrita, que quer controlar, que se apega. E, existe também algo mais silencioso, que observa tudo isso acontecendo. Algo que, às vezes, conseguimos visitar. E que, muitas vezes, esquecemos.

A prática do Yoga é, para mim, um convite para fortalecer essa relação. Desses dois "eus".

Não porque o Yoga nos leva magicamente a um estado iluminado. Não porque um dia acordaremos completamente livres dos nossos condicionamentos. Mas, porque nos ajuda a enxergar o que não enxergamos.

E aqui entram Kriya Yoga e Ashtanga Yoga.

Não como uma sequência rígida de etapas que precisamos cumprir perfeitamente. Nem como uma escada espiritual onde cada degrau nos torna melhores do que antes.

Prefiro olhar para os oito angas como ferramentas.

Recursos que podemos utilizar em diferentes momentos da vida. Apoios que nos ajudam a cultivar presença, discernimento e cuidado.

E existe algo que dá vida a todas essas ferramentas: abhyāsa e vairāgya.

A prática constante e o desapego maduro.

Não o desapego da indiferença. Nem o da fuga.

Mas aquele que nos permite olhar para nós mesmos com honestidade.

Com o tempo, começamos a perceber padrões que antes passavam despercebidos. Reações automáticas. Crenças antigas. Medos recorrentes. Tendências que parecem escolher por nós antes mesmo que possamos decidir.

Os samskāras vão emergindo e se revelando.

E isso é importante porque aquilo que não enxergamos costuma nos conduzir.

Observar esses movimentos não significa lutar contra eles. Não significa endurecer a vontade ou tentar controlar cada pensamento, muito menos um auto julgamento com auto condenação.

Significa estar presente.

Perceber o corpo.

Perceber a respiração.

Perceber as emoções.

Perceber os impulsos.

E reconhecer que tudo isso traz informações valiosas sobre quem estamos sendo naquele momento.

Quando surge a irritação, ela conta uma história.

Quando surge a fuga, ela aponta uma direção.

Quando surge o orgulho, a necessidade de aprovação ou até mesmo uma bondade automática para facilitar um pertencimento, há algo ali pedindo para ser compreendido.

Cada reação se transforma em informação.

Cada ação se transforma em oportunidade de aprendizado.

E pouco a pouco a disciplina deixa de parecer uma camisa de força.

Ela passa a funcionar como uma lente.

Uma forma de enxergar com mais clareza.

Talvez seja aí que a liberdade comece a aparecer. Não como a possibilidade de fazer qualquer coisa. Mas, como a capacidade de escolher.

Escolher quando agir.

Escolher quando silenciar.

Escolher quando insistir.

Escolher quando soltar.

Escolher sem estar completamente dominado pelos próprios condicionamentos.

Uma pessoa que aprende a observar suas motivações tende a responder ao mundo com menos reatividade e mais responsabilidade. Suas escolhas deixam de ser apenas repetições do passado e passam a expressar algo mais consciente.

Talvez seja disso que o Yoga esteja falando quando fala em liberdade.

Não uma liberdade distante, reservada para algum futuro ideal. Mas, uma liberdade construída no cotidiano.

Uma escolha de cada vez.

Um gesto de presença de cada vez.

Até que aquele que caminha silenciosamente ao nosso lado deixe de ser um estranho e se torne um companheiro conhecido.

 
 
 

Comentários


© os textos e fotos usadas nesse site são de nossa criação ou arquivo, algumas fotos tem direito livre de uso.

Nosso contato - (41) 99214 5050

bottom of page