top of page

Quando a tradição esquece da liberdade

Recentemente li uma frase que ficou ecoando em mim:

"A tradição deve aprofundar a sua liberdade, não substituí-la."

Talvez ela resuma uma das maiores tensões vividas por muitos praticantes e professores de Yoga atualmente. E preciso dizer que esse texto é inspirado por um post que recebi de uma professora que me inspira. Que vale conhecer, a Ana Poubel do shodashiyoga.com

Sempre busquei algo mais profundo no Yoga. E, busquei uma Tradição que falasse e suprisse essa busca. E encontrei.

Percebo que hoje em dia falamos muito sobre isso tudo, tradição, linhagem, mestres... Sobre quem preserva os ensinamentos.

E tudo isso tem valor. Pelo menos para mim.

Mas, existe uma pergunta que raramente fazemos:

Uma tradição existe para quê?

Se a resposta for preservar a si mesma, minha percepção é de que algo se perdeu no caminho.

Mas, se a resposta for ajudar quem procura a enxergar com mais clareza, então estamos mais próximos do coração do Yoga.

O livro Fernão Capelo Gaivota sempre foi uma inspiração, e esse post me remeteu a ele de novo.

Enquanto as outras gaivotas voavam apenas para sobreviver, Fernão queria compreender o próprio ato de voar. Não porque fosse melhor que as outras gaivotas. Não porque fosse especial ou quisesse ser. Mas porque havia algo dentro dele que não aceitava viver apenas dentro dos limites definidos pelo grupo ou por quem quer que fosse.

A sua busca não era contra a comunidade. Era a favor da liberdade. A liberdade do próprio voo.

Foi nisso que me inspirei para trazer o novo podcast YOGA NO CAOS. E essas reflexões que trago aqui vem dos comentários que recebo já com o 1ºepisódio.

Entendo que existe uma diferença profunda entre seguir um professor e entregar a ele sua capacidade de pensar. E acredito realmente que o professor autêntico não pede a segunda coisa. O post que aqui comento fala disso.

O professor sabe que o objetivo não é criar dependência. Mas, ajudar a desenvolver discernimento.

Nos estudos do Yoga, chamamos isso de viveka.

A capacidade de ver com clareza. De distinguir o essencial do acessório. A verdade da aparência. A sabedoria da repetição mecânica.

Por isso, o estudo é tão importante.

Não para acumular informações. Mas, para amadurecer o olhar.

Nenhum certificado pode fazer isso. Nenhuma autorização externa pode fazer isso. Nenhuma foto ao lado de um mestre pode fazer isso.

Viveka acontece com o encontro sincero entre prática, reflexão, experiência e estudo.

Um professor ajuda a iluminar o caminho. Pode apontar direções. Pode ajudar a evitar alguns buracos.

Mas não pode caminhar por você.

Gosto de pensar que o professor segura uma lanterna.

Ele não estende um tapete vermelho.

A lanterna ilumina o próximo passo.

O tapete vermelho cria a ilusão de que alguém especial está sendo conduzido por um caminho previamente definido.

Yoga não é isso.

Yoga é descobrir como caminhar quando não existe tapete.

É aprender a confiar gradualmente na própria percepção.

É desenvolver humildade suficiente para aprender e autonomia suficiente para questionar. E humildade não é aceitar, se render ou apenas "obedecer".

Os grandes mestres da tradição não queriam cópias de si mesmos. Queriam seres humanos mais conscientes.

Penso que o propósito do Yoga nunca foi criar seguidores. Mas, nos libertar dos condicionamentos.

E talvez seja por isso que toda tradição saudável, cedo ou tarde, nos devolve a nós mesmos.

Ela nos ensina. Nos sustenta no "voo". Nos orienta.

E certamente, em algum momento, nos convida a abrir as asas e só voar.

Como Fernão.

Não para abandonar o voo compartilhado.

Mas para descobrir que o céu é maior do que qualquer bando.


 
 
 

Comentários


© os textos e fotos usadas nesse site são de nossa criação ou arquivo, algumas fotos tem direito livre de uso.

Nosso contato - (41) 99214 5050

bottom of page